

Autor: Antônio Rogério da Silva
Unidade 1: A História da Ciência Cognitiva
- Inteligência Artificial III;
- Texto: GARDNER, H. A Nova Ciência da Mente; II, capítulo 3 pp. 180-196.
A segunda fase da
inteligência artificial (IA) corresponde à passagem dos
padrões gerais para os especiais. Sobretudo, por causa da
introdução de uma abordagem descendente (top-down)
na compreensão da linguagem, indo do modo formal, em "cima",
para o conteudístico, em "baixo". Numa parceria
entre cientistas da computação e psicólogos, em
1977, Roger Schank e seus colegas da universidade Yale conceberam a
noção de roteiro (script) para um
conjunto de eventos padrões respectivos para cada tipo de
ambiente real. De acordo com essa hipótese, o convívio
social consistiria de roteiros que descreveriam, em seqüência,
as ocorrências típicas de uma situação,
como alimentar-se em lanchonete ou restaurantes; ir ao médico
ou visitar um amigo doente etc.
Na metade dos anos
70, Marvin Minsky preparava sua guinada da perspectiva ascendente
-preocupada apenas com o modo formal da compreensão
lingüística-, para uma visão descendente da
linguagem. Em 1975, Minsky apresentou o conceito de quadro
(frame), pelo qual a imagem de um ambiente armazenado
na memória gera expectativas que podem ou não ser
confirmadas no contexto real. Uma grande quantidade desses quadros
permitiria à mente organizar e interpretar uma situação,
por meio de combinações e comparações
capazes de incluir cenários complexos(1).
Depois de 79 e
principalmente de A Sociedade da Mente (1985), Minsky
abandonou a concepção de processador central e mente
unificada, passando a usar a metáfora de vários agentes
especialistas interagindo na atividade mental: a "sociedade da
mente". Nessa associação, cada agente teria uma
função e comunicar-se-ia segundo estímulos e
inibições. A hipótese dos quadros organizadores
e a sociedade da mente, para muitos, reproduziam mais fielmente a
inteligência humana, facilitando a criação de
programas mais eficientes. O conexionismo, as redes neurais e a
teoria computacional contemporânea são teses recentes
que compartilham desse modelo lançado por Minsky.
A partir dessa nova
perspectiva, foi possível superar o domínio da
computação serial inaugurada por Von Neumann. Sob essa
nova orientação, programas e circuitos que processam a
informação em paralelo já foram produzidos.
Assim, os computadores ficam aptos a trabalhar em mais de uma tarefa
ao mesmo tempo, ao invés de seguir uma única seqüência
que processasse uma informação de cada vez. A idéia
de processamento em paralelo abriu novos horizontes de investigação,
envolvendo a neurologia e as teorias sobre percepção
visual, mas hoje em dia, já há quem trabalhe numa
perspectiva que una as duas vertentes. Para autores como Steven
Pinker, por exemplo, a mente funcionaria nos dois níveis,
primeiro no modo paralelo, inconsciente, e depois no serial,
consciente(2).
Compreensão e Percepção
O êxito
obtido pelos programas desenvolvidos por Schank e a equipe de Yale,
comparado aos anteriores, levantou novas discussões em torno
da definição de linguagem sugerida. Para tornar seu
método eficiente, Schank reduziu a língua a conceitos
básicos primitivos que se combinavam num processo chamado de
ampliação telescópica, através
do qual os verbos ordinários são unidos a esboços
pré-definidos quanto a sua destinação, uso de
instrumentos, ação desempenhada e idéia
formulada, entre outras funções. A ampliação
telescópica permite que uma lista básica contendo uma
dúzia de ações primitivas -mover, ingerir,
falar, ver, concluir e mais sete outros verbos- fosse expandida a um
grande número de verbos distintos apenas superficialmente, num
nível superior.
Na elaboração
de seu sistema, Schank recorreu à noção de
inglês básico, defendida por C. K. Ogden em Basic
English: International Second Language (Inglês Básico:
Segunda língua internacional, 1968). Para os adeptos do
inglês básico, a língua de Shakespeare era uma
linguagem universal com a qual poder-se-ia sobreviver dominando um
vocabulário de apenas mil palavras(3).
Os teóricos de tendência chomskiana, no entanto,
consideram arbitrárias as formulações de Schank,
pois elas não teriam princípios observáveis. Por
conseguinte, a falta de um critério sistemático
dificultaria a escolha do roteiro adequado para cada situação.
Mas Schank tinha a seu favor o fato de seus programas funcionarem
satisfatoriamente. O sistema entendedor de Schank -baseado em
unidades primitivas de significado- concentrava-se apenas na
semântica e não na sintaxe da palavra, ao contrário
do desejado por um chomskiano, preocupado com a estrutura sintática
da língua.
Outros sistemas
compreendedores da fala, como o HEARSAY (versões I e
II), elaborados por uma equipe de Stanford, encabeçada por Raj
Reddy, usam grupos de interesse associados a fases particulares da
compreensão da linguagem -pragmática, semântica,
sintaxe, lexical, fonêmica e fonética. Tais grupos são
orientados para uma análise análoga a de um quadro
negro dividido hierarquicamente em camadas horizontais com cada uma
reservada para detecção dos fonemas, palavras,
sentenças, desde o nível mais baixo ao mais elevado.
Essas camadas comunicam-se usando listas de valores pré-estabelecidos
que determinam o significado de cada segmento nas listas de palavras
fornecidas(4).
A respeito da
percepção, as efêmeras esperanças no
programa PERCEPTRON, de Frank Rosenblatt, projetado ainda
nos 60, logo foram esquecidas, devido ao mal funcionamento no
reconhecimento de padrões visuais. Durante um pequeno período,
acreditou-se na impossibilidade de descrever formas de percepção
visual, segundo o modelo neural. Em 1972, Patrick H. Winston esboçou
o primeiro sistema para copiar razoavelmente estruturas gerais de um
mundo de blocos, por amostragem. Este programa reconhecia mesas,
arcos, pedestais através de exemplos e contra-exemplos de cada
um, mas num domínio muito restrito. Na análise de
desenhos, David Waltz, do MIT, partiu da idéia simples de
rotulação dos elementos que constituem a imagem para
enumerar as linhas gerais do desenho. Eliminando os rótulos de
linhas que são incompatíveis com os rótulos
vizinhos, reduzia-se o número de interpretações
para cada uma delas, restando no máximo duas ou três que
um método de retrocesso, ao final do programa procurava
restringir, em caso de impasses(5).
Apesar das
dificuldades, o passo decisivo na área da percepção
visual foi dado por David Marr (1945-1980). Influenciado pela teoria
de Chomsky, o trabalho de Marr -encerrado pela sua morte prematura,
aos 35 anos- projetava programas consistentes com a estrutura da
percepção visual, em geral, sem deter-se à
particularidades do sistema nervoso. Em Vision (Visão,
publicação póstuma de 1982), Marr adaptou o
conceito de cilindro generalizado, de Thomas O. Binford, ao
seu esboço em duas dimensões e meia da imagem. Os
resultados surpreendentes dessa pesquisa, além de outros
programas de prospecção; de percepção
musical ou sobre o desenvolvimento cognitivo deram impulso à
segunda geração da IA, superando as práticas
superficiais do início(6).
Como Não
Aprender Chinês
Esses
avanços significativos não foram suficientes para
evitar as críticas filosóficas. Em 1980, o filósofo
da linguagem John R. Searle escreveu o artigo "Minds,
Brains and Programs" (Mente, Cérebro e Programas), no qual
lançou a distinção das pesquisas que visavam
esclarecer os processos mentais, como causas do comportamento das
partes do cérebro -ou IA fraca-, daquelas que consideravam o
cérebro como um computador e a mente o seu programa -a IA
forte. Para Searle, a IA fraca permite a harmonia entre as abordagens
biológicas e o que se sabe sobre o mundo, enquanto a IA forte,
ao tentar criar mentes artificiais estaria condenada ao fracasso,
pois nenhum programa de computador seria suficiente para fornecer um
sistema inteligível(7).
Nesse
artigo, Searle apresentou o experimento mental batizado de "quarto
chinês", como um contra-exemplo às pretensões
dos partidários da IA forte. Um falante de uma língua
ocidental -o português, no nosso caso- é isolado numa
sala que contém vários símbolos em mandarim
-língua oficial da China-, cujo significado ele desconhece.
Sobre uma mesa, há um manual em português com regras de
como o "lusófono" deve entregar os símbolos
corretos, toda vez que determinados cartões, em mandarim, lhe
forem mostrados. Desse modo, observando no manual a correlação
específica entre os sinais recebidos e os enviados, a pessoa
dentro da sala, induz o destinatário de seus cartões,
do lado de fora, falante do mandarim, a acreditar que ele compreende
sua língua. No entanto, o falante do português trancado
na sala, na verdade, não entende uma palavra em mandarim. Tudo
que ele faz é seguir as instruções contidas no
manual. Moral da história: se o manual, semelhante ao programa
de um computador, não ensina palavra alguma em outra língua
ao leitor, então nenhum computador, ao executar um programa,
compreende o conteúdo daquilo que está sendo
processado. Tal como o personagem na sala, o computador apenas segue
as instruções formais para manipular símbolos em
uma sintaxe correta, sem compreender seu significado semântico(8).
Com
isso, Searle atacava a pretensão de que o teste de Turing
fosse suficiente para atribuir corretamente uma mente a máquinas,
pois seu desempenho poderia ser uma mera imitação
formal, sem entendimento do conteúdo da ação.
Por apresentar apenas um comportamento sintático formalmente
correto, o computador não conhece a semântica, o
contexto real de sua atuação, ou a intenção
de seus estímulos ou respostas(9).
A
inspiração do "quarto chinês" é
uma adaptação de experimento semelhante imaginado por
Ned Block no artigo "Troubles
With Functionalism" (Problemas com o Funcionalismo, 1978).
O chamado "ginásio chinês" reunia, num estádio
maior que o Maracanã, milhões de pessoas para que elas
transmitissem sinais umas às outras, por meio de rádios
de fala-escuta -numa analogia ao funcionamento dos neurônios.
Assim, seguindo uma série de regras, a multidão
conseguiria responder a perguntas sobre histórias em mandarim,
embora o ginásio não entendesse uma palavra dessa
língua. É curioso notar que a intenção de
Block era defender a teoria computacional do cérebro, o oposto
do que Searle propôs (10).
Contra o conexionismo, Searle diz que as conexões
correspondentes às sinapses neurais não simulam as
propriedades causais que provocam a sua compreensão, por mais
perfeita que seja a emulação do funcionamento do
cérebro. Falta-lhes habilidade para produzir estados
intencionais. Para Searle, "a mente e o corpo interagem, mas são
duas coisas diferentes, visto que os fenômenos mentais são
justamente características do cérebro" (11).
O
cientista cognitivo canadense, Zenon W. Pylyshyn, criticou a
vinculação entre intencionalidade e o aparato físico
cerebral, feita por Searle. Semelhante aos contos "Segregacionista" e "O Homem Bicentenário", de Isaac Asimov, Pylyshyn imaginou a substituição
gradual das células nervosas por circuitos eletrônicos
integrados que mantivessem a mesma função delas, até
chegar o ponto em que a pessoa, subjetivamente, perdesse a
compreensão do significado de suas ações. Nesse
momento, todos os seus amigos, do ponto de vista objetivo,
continuariam entendendo suas palavras como se elas remetessem a
alguma intencionalidade.
Apesar
desse embaraço, Searle continuou mantendo sua posição
de que bastam apenas dois níveis de explicação
-intencional e fisiológico- para entender porque o cérebro
realiza estados intencionais. Destarte, ele abandona a idéia
de que haja um programa de computador entre a mente e o cérebro
e com ela a necessidade de um nível de representação
simbólica (12).
História Sem Fim
Uma
vertente purista de filósofos da lingüística
transformacional conclamou os cientistas da IA a abandonarem suas
posições, sem critério e especialistas, em favor
de uma visão dos sistemas em si, estudando o desempenho de
seres humanos competentes, como o método empírico da
física e da biologia. Para outros, falta uma comparação
produtiva entre as diversas teorias computacionais antepostas, de
acordo com critérios científicos tradicionais, além
de uma pesquisa mais atenta sobre os princípios que atuam
sobre a mente humana. As limitações atuais da IA exigem
que os programas devam ser passíveis de demonstração
empírica e não somente descrições verbais
de projetos, no intuito de apresentar princípios seguros de
aplicação.
A
possível aproximação entre psicologia
experimental e IA, por um lado, permite aos psicólogos testar
seus modelos teóricos por meio de computadores, enquanto os
pesquisadores da IA verificaria se suas hipóteses
computacionais realmente se ajustam a seres humanos. A idéia
dos computadores seriais do tipo Von Neumann parece ter sido, em
parte, superada pela computação paralela da informação,
mais próxima da cognição notada nos humanos.
Entretanto, ainda está aberta a questão se a teoria
computacional é o melhor modelo para os processos mentais. É
possível que a lingüística venha a constituir a
interpretação mais correta, capaz de aplicar as
ferramentas da psicologia e da ciência da computação,
devido à posição de destaque que a linguagem
exerce entre as faculdades cognitivas humanas e os avanços
desse setor específico do conhecimento (13).
Entretanto,
os lingüistas, em geral, têm tratado a linguagem isolada de seus
aspectos mentais. Para a ciência cognitiva, aqui esboçada,
o tipo de linguagem mais relevante é aquela que a mente, de
algum modo, constrói para o trato interno da informação.
O "mentalês", a linguagem do pensamento é um
dos três alvos principais da ciência cognitiva -ao lado
do computador e do cérebro-, dos quais não faz parte a
língua natural, inventada para transmitir essas informações
entre os indivíduos. Por fim, o pensamento não processa
as informações no idioma pátrio, pois estas são
transmitidas diretamente por feixes de neurônios dentro da
cabeça. As regras gramaticais dizem respeito tão
somente a artigos, proposições, verbos e outros
componentes da língua natural. Certamente, elas não
correspondem à gramática do mentalês, que se faz
valer de símbolos, imagens e emoções para
elaboração do pensamento (14).
Referências
Bibliográficas
ASIMOV, I. Visões de Robô;
trad. Ronaldo S. de Biasi. - Rio de Janeiro: Record, 1994.
GARDNER, H. A Nova Ciência da
Mente; trad. Cláudia M. Caon. - São Paulo: Edusp,
1995.
PINKER, S. Como a Mente Funciona; trad.
Laura T.Motta. - São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SEARLE, J. R. Mente, Cérebro e
Ciência; trad. Artur Morão. - Lisboa: Edições
70, 1987.
WINSTON, P. H. Inteligência
Artificial; trad. Carlos O. Pavel. - Rio de Janeiro: LTC, 1988.
Notas
1.Veja GARDNER, H. A Nova Ciência da
Mente, II, 3, pp. 180-181.
2.Veja PINKER, S. Como a Mente Funciona,
cap. 2, p. 154 e GARDNER, H. Op. Cit., idem, pp.
181-182.
3. Veja WINSTON, P.H. Inteligência
Artificial, cap. 8, pp. 261 e ss.
4. Veja WINSTON, P. H. Op. Cit., cap.
5, pp. 135-136 e GARDNER, H. Idem, ibidem, pp. 182-184.
5. Veja WINSTON, P. H. Idem, cap. 3,
p. 78.
6. Veja WINSTON, P. H. Ibidem, cap. 10,
p. 325-370 e GARDNER, H. Ibidem, ibidem, pp. 184-186.
7. Veja GARDNER, H. Ibidem, ibidem, pp.
186-187 e SEARLE, J. R. Mente, Cérebro e Ciência,
II, pp. 35 -36 e 48-49.
8. Veja SEARLE, J.
R. Op. Cit, idem, pp. 39-41.
9. Veja
GARDNER, H. Ibidem, ibidem, pp. 187-188.
10. Veja
PINKER, S. Op. Cit. idem, pp. 104-105.
11. SEARLE,
J. R. Idem, cap. I, p. 33.
12. Veja
GARDNER, H. Ibidem, ibidem, pp. 188-191 e SEARLE, J. R. Ibidem,
cap. III, pp. 66-70.
13. Veja
GARDNER, H. Ibidem, ibidem, pp. 192-196.
Veja PINKER, S. Idem,
ibidem, p. 81-82.
