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Autor: Antônio Rogério da Silva
Unidade 1: A história da Ciência Cognitiva
Perspectiva Filosófica;
Texto: GARDNER, H. A Nova Ciência da Mente; II, capítulo 1 pp. 63-73.
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A filosofia é a mais antiga das "profissões" cognitivas. Essa disciplina estabeleceu a lista de temas e problemas com os quais a ciência cognitiva atual procura confrontar através de experimentos. Durante sua história, a filosofia apresentou várias versões sobre a representação mental, o processamento mecânico do pensamento e a relação entre razão e emoção.
René Descartes pode ser considerado o primeiro filósofo moderno a tratar de assuntos da ciência cognitiva. Ele desenvolveu o método da dúvida metódica que se tornou referência obrigatória nos séculos posteriores. Duvidando de tudo que pudesse ser enganoso, restava-lhe apenas confiar naquela afirmação sem a qual cairia em contradição: a existência de algo pensante. Essa coisa que pensa, a saber, o próprio sujeito do pensamento, seria o fundamento seguro para apoiar as demais certezas passíveis de demonstração. A própria mente de quem pensa seria o eixo central em torno do qual um conhecimento claro sobressairia a todo questionamento.
A mente cartesiana era, então, o fundamento de uma existência indubitável. Ela era concebida como sendo separada da matéria e totalmente diferente desta. O corpo era tido por autômato e comparável às máquinas feitas pelo homem. Ao contrário do corpo, que se corrompe e divide em várias partes, a alma era una, indivisível e imortal. Tal distinção, entre uma mente racional e um corpo mecânico, dificultava a explicação acerca da interação de um sobre o outro. Descartes propôs que a alma humana havia sido criada de modo a estar estreitamente ligada ao corpo "para possuir sentimentos e apetites idênticos aos nossos e deste modo compor um verdadeiro homem"(1).
Em
Paixões da Alma (1649), Descartes descreveu o esquema
que, a seu ver, mostrava como as sensações visuais são
transmitidas da retina até o cérebro, por nervos,
chegando à glândula pineal, onde a alma poderia
interagir com o corpo, através da circulação
sanguínea. Embora a experiência e os sentidos fossem a
fonte das idéias de objetos sensíveis, em nada estas
serviriam, não fosse a capacidade da mente em as perceber e as
transformar em pensamentos. Assim como no dualismo platônico,
Descartes creditava à mente a faculdade de julgar a verdade
das coisas. As idéias verdadeiras teriam causas inatas e não
empíricas. Todo erro e inconstância humanos
originavam-se na experiência. As argumentações
cartesianas em favor de uma mente ativa, como um instrumento
racional, impossível de ser reproduzida por máquina
alguma, influenciaram as gerações seguintes. Descartes
pôs adiante a agenda cognitiva iniciada pelos gregos. Depois
dele, os empiristas ingleses formularam as primeiras respostas ao
inatismo, até culminar na síntese crítica de
Immanuel Kant.
Nessa trajetória histórica, o computador é inventado quando essa tradição filosófica sofria os mais duros ataques. Porém, novas abordagens, como o funcionalismo e intencionalidade, resgatam e colocam sob nova roupagem a antiga epistemologia, admitindo a natureza representacional do pensamento. O duelo entre empiristas e racionalistas permanece até hoje. Os behavioristas podem ser agrupados no lado empiristas, ao passo que os cognitivistas oscilam entre o racionalismo puro e uma mescla racionalista-empirista. Nesse contexto, a filosofia ora assumia o centro das discussões, ora era posta em segundo plano pela tendência fisicalista. Isso obrigou os filósofos interessados na natureza do conhecimento a manterem-se informados sobre as descobertas científicas relacionadas com a mente, sob pena de, caso contrário, defenderem posições anacrônicas, sejam elas empiristas ou idealistas.
Para muitos, entretanto, a investigação empírica torna desnecessária a participação de filósofos. Mas há quem considere útil a cooperação filosófica na interpretação de resultados e na proposição de novos vieses. As reflexões cartesianas sobre a possibilidade do ser humano autômato são importantes para a orientação das pesquisas em inteligência artificial que visem a fabricação de robôs. As conceituações filosóficas, por vezes, orientam o trabalho empírico e auxiliam a interpretação. Nesse sentido, a filosofia, ao invés de ser juíza ou ré, tem sido uma importante colaboradora no estudo da ciência cognitiva(2).
O Modelo Empirista
Descartes teve suas idéias rebatidas imediatamente por Thomas Hobbes (1588-1679) que, através de padre Marin Mersenne (1588-1648), encaminhou as dúvidas que fazem parte da obra cartesiana Objeções e Respostas (1641). Em seguida, os chamados empiristas ingleses, John Locke, George Berkeley (1685-1753) e David Hume, formularam idéias opostas às de Descartes. Locke criticou a existência de idéias inatas, argumentando que apenas a experiência seria a única fonte de conhecimento possível.
No seu Ensaio acerca do Entendimento Humano (1690), a mente foi descrita como algo semelhante a um papel em branco a ser preenchido com o conhecimento adquirido pela experiência -a famosa tábula rasa. A partir da percepção e sensação das coisas, as idéias poderiam ser desenvolvidas em progressão, das primárias às secundárias, das simples às complexas, de modo que fosse possível se associar umas com as outras. O ser pensante era capaz de produzir abstrações e generalizações com a interação dessas idéias extraídas da experiência(3).
Ao contrário de Locke, Berkeley tentou mostrar que a idéia de uma substância material só era passível de entendimento por causa da existência de um ser percipiente. Toda confusão em torno das idéias surgia por causa da incompreensão da condição dos seres sensíveis, cuja concepção dependia necessariamente da percepção do sujeito. Isto é, tais seres substratos só poderiam ser entendidos como aqueles que são percebidos e que para existirem precisariam de um espírito que os percebessem. A mente que percebe e experimenta é a única que torna possível o conhecimento das sensações e das idéias. Todo equívoco envolvendo essa concepção se daria por conta da linguagem; do abuso das palavras que das idéias particulares visam encontrar idéias gerais abstratas. Para Berkeley, nem todos nomes significam idéias. A propriedade de uma coisa particular não permitiria a conclusão de que tal atributo compusesse a uma outra coisa com o mesmo nome em todos aspectos diferente. Por exemplo, da soma interna dos ângulos de um triângulo ser 180°, não se conclui que um isósceles seja igual ao triângulo retângulo ou escaleno(4). Portanto, a idéia que se tem de uma coisa não poderia ser separada de sua percepção, uma idéia abstrata jamais surgiria de uma particular.
Sob outro aspecto, em vez de atacar inicialmente o modo de conceber as idéias, Hume criticou a noção de causalidade vinculada entre dois eventos que costumeiramente se sucedem um ao outro. Como é sabido, ele demonstrou não haver motivos fortes para se construir uma relação necessária entre eventos particulares que periodicamente ocorreram no passado e sua generalização para eventos semelhantes no presente e no futuro. Somente o hábito justificaria a correlação feita entre dois acontecimentos em tempos sucessivos, mas distintos um do outro. A racionalidade, portanto, não poderia ser ancorada nessa aparente regularidade dos fenômenos naturais. Nesse sentido, a mente humana, concebida por Hume, resume-se à capacidade de combinar, transpor, aumentar ou diminuir os dados fornecidos através dos sentidos, pela experiência. Sem supor o agenciamento de uma entidade incorporada, "todos os materiais do pensamento -dizia Hume- derivam da sensação interna ou externa; só a mistura e composição destas dependem da mente e da vontade"(5). Apenas três princípios seriam suficientes para a conexão entre as idéias: semelhança, contigüidade e causação. E todas as operações da alma seriam geradas pelo hábito como um instinto natural(6).
Todas essas objeções empíricas abrangiam questões quanto à natureza da experiência sensorial, a classificação dos objetos, o papel da linguagem e o estatuto do ser consciente. Tais questões ainda são comuns a ciência cognitiva em seu estágio inicial(7).
A Síntese Fundacional de Kant
Quando Kant se pôs a escrever sua Crítica da Razão Pura (1781), ele se encontrava diante dessas duas correntes filosóficas. A primeira, idealista, defendida pelo cartesianos e pelo filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) que rebatia Locke dizendo que não havia nada na mente humana que não tivesse passado pelos sentidos, a não ser o próprio intelecto e suas paixões(8). Segundo essa tendência, o pensamento em geral poderia organizar e revelar todas as possibilidades de conhecimento.
Os empiristas constituíam o segundo ponto de vista pelo qual o pensamento era apenas o instrumento de reflexão ou elaboração da experiência física. Para eles, as afirmações e provas a priori dos princípios universais da razão pura não passavam de tautologias que nada acrescentavam ao entendimento da mente e do mundo.
Ao invés de comprometer-se com uma dessas duas correntes, Kant tentou, então, estabelecer os limites das posições empiristas e racionalistas, propondo uma interpretação crítica da razão. A postulação de um juízo sintético a priori reconhecia que o conhecimento tinha como fonte a experiência, sendo portanto sintético, mas sua necessidade era estabelecida a priori pela razão especulativa. Kant, tal como Descartes, concebia a mente como uma entidade ativa do entendimento -o eu transcendental- capaz de moldar e organizar as sensações e as idéias, transformando a aparente desordem da experiência num pensamento estruturado. Embora não fosse apta a conhecer a si mesmo, dada as limitações da razão em conhecer coisas em si, o eu transcendental seria capaz de obter o conhecimento possível da experiência, como fenômeno.
Através dos conceitos puros da sensibilidade -espaço e tempo- a mente poderia construir afirmações verdadeiras sobre o mundo. Portanto, o conhecimento proviria da experiência sensorial dos fenômenos naturais e seriam organizados segundo categorias do pensamento -quantidade, qualidade, relação e modalidade. Como tais, os conceitos sensíveis puros não seriam construídos por imagens dos objetos, mas por esquemas transcendentais produzidos pela imaginação sem recorrer à intuição singular. O esquema nada mais seria do que uma representação geral de um conceito criada como figura pela imaginação(9).
No jargão da ciência cognitiva, os esquemas funcionariam como "representações mentais", sendo uma interpretação intelectual da experiência sensorial. Pode-se entender, assim, esses esquemas como uma maneira de relacionar as representações com o mundo físico e a estrutura inata da mente. Contudo, ao apontar as limitações do conhecimento, Kant condenou a possibilidade de uma psicologia empírica fornecer algum resultado válido, pois a mente jamais poderia conhecer-se a si mesma, devido a impossibilidade dela realizar experiência espaciais e temporais sobre si. Por conta disso, durante os anos que se seguiram, a psicologia cognitiva teve de enfrentar mais este obstáculo posto por Kant(10).
Referência Bibliográfica
BERKELEY, G. Tratado sobre os Princípios de Conhecimento Humano; trad. Antônio Sérgio. - São Paulo: Abril Cultural, 1980.
DESCARTES, R. Discurso do Método; trad. J. Guinsburg e Bento Prado Jr. - São Paulo: Abril Cultural, 1983.
____________, _ . Paixões da Alma; trad. J. Guinsburg e Bento Prado Jr. - São Paulo: Abril Cultural, 1983.
GARDNER, H. A Nova Ciência da Mente; trad. Cláudia M. Caon. - São Paulo: Edusp, 1995.
HUME, D. Investigação sobre o Entendimento Humano; trad. Leonel Vallandro. - São Paulo: Abril Cultural, 1980.
KANT, I. Crítica da Razão Pura; trad. Manuela P. Dos Santos e Alexandre F. Morujão. - Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1989.
LEIBNIZ, G. Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano; trad. Luiz J. Baraúna. - São Paulo: Abril Cultural, 1980.
LOCKE, J. Ensaio acerca do Entendimento Humano; trad. Anoar Aiex. - São Paulo: Abril Cultural, 1978.
Notas
1. DESCARTES, R. Discurso do Método, V, p. 62.
2. Veja GARDNER, H. A Nova Ciência da Mente, II, 1, pp. 63-68.
3. Veja LOCKE, J. Ensaio acerca do Entendimento Humano, II, cap. 1-12 e GARDNER, H. Op. Cit., II, 1, pp. 68-69.
4. Veja BERKELEY, G. Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano, introdução, § 16 e §1 a §8.
5. HUME, D. Investigação sobre o Entendimento Humano, seç. II, § 13, p. 141.
6. HUME, D. Op. Cit, seç. V, § 36-38, pp. 151-153.
7. Veja GARDNER, H. Idem, idem, pp. 69-70.
8. Veja LEIBNIZ, G. Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano, II, cap. I, §2, p. 62.
9. Veja KANT, I. Crítica da Razão Pura, B 176-180.
Veja GARDNER, H. Ibdem, ibdem, pp. 70-73.
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