História da Ciência CognitivaCurso de Ciência Cognitiva

Autor: Antônio Rogério da Silva

Unidade 1: A história da Ciência Cognitiva

Texto em Discursus

O dia 11 de setembro de 1956 foi fixado pelo psicólogo George Miller como a data que corresponde ao reconhecimento geral da existência de uma Ciência Cognitiva, com tal. Foi o segundo dia do Simpósio sobre Teoria da Informação realizado no MIT, quando foram apresentados três artigos importantes para consolidação dessa nova ciência. Allen Newell e Herbert Simon expuseram o texto "Logic Theory Machine" (Máquina de Teoria Lógica). Noam Chomsky leu o seu "Three Models of Language" (Três Modelos da Linguagem), enquanto Miller esboçava as idéias principais que constituíam o artigo "The Magical Number Seven" (O Mágico Número Sete).

No primeiro desses ensaios, Newell e Simon descreveram pela primeira vez uma máquina apta a fornecer a primeira prova completa de um teorema da lógica. Chomsky, por seu turno, refutou a possibilidade da teoria da informação, sugerida por Claude Shannon, abranger a linguagem natural. Em contrapartida, a gramática, a seu ver, deveria ser entendida em moldes matemáticos que explicassem suas transformações lingüísticas formais. No terceiro texto, Miller delineou as limitações da memória humana de curto prazo, capaz de armazenar em torno de sete itens - no máximo nove e no mínimo cinco informações - a serem processadas. Acima de sete, as pessoas esbarravam em dificuldades de fazer distinções absolutas entre uma informação ou outra. Abaixo disso, as tarefas eram executadas com maior facilidade.

No período de cinco anos compreendido entre 1955 e 60, em resposta aos equívocos da primeira metade do século XX, a nova geração de cientista que surgia passou a denominar o novo campo de estudos por "processamento de informação" e mais tarde por "psicologia cognitiva moderna". Além dos textos mencionados a pouco, outros livros como The Computer and Brain (O Computador e o Cérebro, 1958), de John von Neumann, lançado um ano depois de sua morte, incluíam discussões acerca de computadores, programas, memória e máquinas que se auto-replicam.

Pesquisas nas áreas que formaram a ciência cognitiva revelaram a especificação precisa das células nervosas e por isso foram merecedoras de vários prêmios, incluindo alguns Nobel -em fisiologia e medicina, 1949 (Egas Moniz, 1874-1955), 1958 (Joshua Lederberg, 1925), 1963 (John C. Eccles, 1903-1997), 1970 (Bernard Katz, 1911), em economia, 1978 (Simon). Estudos antropológicos mostravam que a grande variedade de culturas existentes, de fato possuíam processos cognitivos semelhantes. No desenvolvimento da Inteligência Artificial, os cientistas John McCarthy, Marvin Minsky, Newell e Simon, entre outros, elaboraram programas que pudessem solucionar problemas em geral, reconhecer padrões, participar de jogos e raciocinar logicamente.

Em filosofia, Hilary Putnam (1926) concluiu que o conceito de máquina de Turing e a invenção do computador eletrônico ajudavam a solucionar o problema mente-corpo. No ensaio "Mind and Machine" (Mente e Máquinas, 1960), Putnam considerava evidente que programas (software) poderiam ser descritos independente do equipamento (hardware) em que fosse executado. A "descrição lógica" da máquina de Turing dispensava a especificação da estrutura física do aparelho. Assim, os "estados corpóreos" do tipo do cérebro humano, como as máquinas computadoras, eram diferenciados dos "estados mentais" que efetivamente continham. O sistema nervoso humano armazenaria programas que poderiam ser descritos coma mesma linguagem simbólica usada na sua elaboração. Com isso, a filosofia dava seus primeiros passos em direção ao trabalho empírico da ciência cognitiva(1).

A Década de 70

Entre 1960 e 70, a ciência cognitiva já adquirira o reconhecimento oficial traduzido em apoio financeiro oriundo de fontes governamentais e privadas. Os argumentos dos pesquisadores pioneiros orientavam o debate intelectual naquela época. Na universidade Harvard, antigo reduto behaviorista, Jerome Bruner e George Miller fundaram o Centro de Estudos Cognitivos, por onde passaram os principais acadêmicos deste setor. Eles eram convidados a discutir e experimentar, durante um ano, as idéias em voga.

No começo da década, Miller, ao lado de Karl Pribram e Eugene Galanter, lançou o livro Plans and The Struture of Behavior (Plano e Estrutura do Comportamento, 1960), no qual o computador se tornava o paradigma da mente humana. Segundo os autores, os seres humanos poderiam ser descritos em termos de planos organizados hierarquicamente; imagens, que representavam o conhecimento do mundo, e objetivos.

Já em 1962, os primeiros programas genéricos de resolução de problemas foram descritos no livro Human Problem Solving (Resolvendo Problemas Humanos), de Newell e Simon. Em 63, Edward Feigenbaum e Julian Feldmam apresentaram os melhores programas do período na coletânea Computers and Thought (Computadores e Pensamento). No ano seguinte, Jerry Fodor (1935) e Jerrold Katz publicaram The Struture of Language (A Estrutura da Linguagem), com forte influência chomskyana, tanto na filosofia, como na psicologia e sobretudo na lingüística.

A partir de 1967, com o lançamento do livro Cognitive Psychology (Psicologia Cognitiva), Ulric Neisser inaugura as primeiras críticas à teoria computacional, dentro da nova perspectiva cognitiva. Neisser era contrário à aceitação incondicional da comparação feita entre a atividade humana e o acesso, processamento e transformação de dados computacionais. Para ele, a quantidade de informação que pode ser processada não era importante para psicologia, pois os seres humanos selecionavam informações, ao passo que as máquinas não. Nenhum programa de computador escrito até então correspondia à complexidade da mente humana. Tais programas seguiam apenas uma lista de regras, sem qualquer influência das emoções ou possibilidade de distração. Posição contrária à defendida por Simon, para quem o computador e a mente humana não passavam de "sistemas simbólicos" incorporados em entidades físicas que operam vários tipos de símbolos(2).

Em meados da década seguinte, a fundação norte-americana Alfred Sloan - uma entidade privada voltada para o fomento de "programas particulares"-, depois de encerrar sua participação nas pesquisas neurológicas, decidiu investir de 15 a 20 milhões de dólares, entre 1976 e 1983, na área da ciência cognitiva. Com tanto incentivo, logo foi fundada a primeira revista exclusiva sobre o assunto, a Cognitive Science, cujo número um foi lançado em janeiro de 1977. Dois anos depois, surgiu a Sociedade de Ciência Cognitiva, que promoveu seu primeiro encontro em agosto de 1979, na cidade de La Jolla (Califórnia, EUA). Por todo lado, nos Estados Unidos e na Europa, apareciam programas, cursos e periódicos especializados, incluindo o livro de Gardner, que contavam com o patrocínio de Sloan.

A abertura desse novo horizonte de pesquisa não garantia, todavia, a total concordância sobre o objetivo comum da investigação. Até o final da década de 90, nenhuma linha de pesquisa obteve um apoio consensual dos cientistas, em relação ao seus métodos e pressupostos, de modo que cada um dos envolvidos procurava impor seus próprios parâmetros como aquele a ser seguido pela ciência Cognitiva(3).

Representações e Computadores

Para tentar delinear o que seja a ciência Cognitiva em suas partes principais, admite-se que ela postule uma análise específica das entidades representacionais, tais como símbolos, regras e imagens que intermediam os estímulos e as respostas de um organismo. Tal análise volta-se para as combinações, transformações e comparações feitas entre aquelas representações. Dessa forma, tenta-se explicar a variedade de comportamento e pensamento humanos. Para fins científicos, aqueles que adotam essa linha de investigação interpretam a mente através desses conceitos representacionais, segundo um vocabulário mentalista, também chamado de "mentalês".

Contra essa postura representacional, os behavioristas de vários matizes consideram as representações mentais prejudiciais ao entendimento correto do comportamento. Faria mais sentido falar em estruturas neurológicas e influências ambientais do que em idéias, esquemas e regras incoerentes e enganadoras. Outra crítica do tipo eliminativista recusa a investigação privilegiada das representações mentais, alegando que seria possível passar do senso comum sobre crenças e desejos para uma explicação neurológica que fizesse a correspondência desses termos com os estados físicos do sistema nervoso.

Entre aqueles que atuam no nível representacional, alguns admitem apenas os enunciados e proposições como sendo a única forma de representação mental; outros duas: as imagens e proposições; e há ainda quem ache possível muitas formas de representação, sem que nenhuma seja a única correta. Até a década de 90, havia cientistas representacionalistas que consideravam desnecessário o conhecimento detalhado do sistema nervoso para o entendimento da cognição. Isso provocou o afastamento dos neurologistas das discussões em torno da descrição representacional, deixando para os psicólogos, lingüistas e cientistas de computação a fala dominante(4).

O computador, por sua vez, tem servido à ciência cognitiva como um exemplo de máquina criada pelo homem capaz de raciocinar, seguir objetivos, refazer seu comportamento, manipular informações de modo semelhante ao humano. Mesmo que nem todos cientistas adotem esse modelo, o computador tem sido uma ferramenta útil àqueles que quiserem testar virtualmente suas teorias sobre o funcionamento da mente. Nesse sentido, os cientistas vêm usado cada vez mais o computador como instrumento de análise de dados e como laboratório para simulação dos processos cognitivos.

Para muitos, a inteligência artificial é tida como a disciplina central da ciência cognitiva, a ponto de atrair todo interesse sobre o assunto, deixando de lado outros campos epistemológicos tradicionais. Exageros à parte, alguns neurologistas sustentam que, mesmo sendo o computador uma ferramenta útil na armazenagem e simulação de suas teorias, o estudo do cérebro revelará por si só o seu funcionamento, sem apelar para o modelo computacional. Já os antropólogos dizem que o pensamento só será definitivamente explicado com o entendimento das forças histórica e culturais, fora da cabeça: "a verdade está lá fora!". Enquanto isso, os filósofos mantêm-se, como sempre, divididos entre entusiastas e céticos radicais(5).

A Viabilidade da Ciência Cognitiva

Para tornar-se viável, a ciência cognitiva deixou de lado, no primeiro estágio de sua evolução, os aspectos afetivos, históricos e culturais. A fim de evitar o esforço de explicar tudo, os cognitivistas deixaram momentaneamente de lado conceitos mais obscuros do que aqueles com os quais estavam lidando. Os críticos, por outro lado, afirmam, com razão, que tais conceitos são fundamentais na existência humana e que sem eles qualquer ciência está condenada ao fracasso. Na visão humanista, dever-se-ia trabalhar em dobro para incluir esses aspectos conjunturais aos modelos de pensamento e comportamento humano(6).

O sonho de uma ciência cognitiva unificada é ainda um sonho distante da realidade. Freqüentemente, cientistas cognitivos têm de recorrer a pesquisas realizadas em outras áreas. Assim, estudos da percepção envolvem psicólogos, neurologistas, computadores e eventualmente biólogos, economistas, físicos e sociólogos, sem respeitar limites interdisciplinares. Aqueles que tentam unificar o campo alegam que tempo e dinheiro são desperdiçados em colaborações mal resolvidas. Cientistas cognitivos individualmente podem estabelecer cooperação com outras matérias, mas nunca deveriam esperar uma fusão total de disciplinas(7).

Os problemas filosóficos clássicos são o ponto de partida lógico das investigações da ciência cognitiva. Alguns cientistas reconhecem a necessidade de um fundamento filosófico, enquanto outros consideram-no irrelevante ou mesmo prejudicial. Por causa dessa polêmica, o conhecimento da tradição filosófica pode ser útil, pois os filósofos procuram definir o conhecimento humano, a natureza e o alcance da pesquisa cognitiva desde a antiguidade.

O paradoxo computacional representa o embaraço recente que o modelo do computador serial encontrou na explicação de processos superiores de pensamento humano. A visão sistemática, lógica e racional da cognição humana, que se tinha no início, não satisfaz a maior parte do pensamento e comportamento do ser humano. A linha predominante da ciência cognitiva abrange a psicologia, inteligência artificial e lingüística, porém disciplinas vizinhas como as neurociências progridem sem utilizarem conceitos representacionais ou computacionais. Questões essenciais da antropologia, parecem melhor desenvolvidas quando levam em conta a história, cultura e narrativas pessoais, do que empregando termos cognitivos.

A ciência cognitiva tem por desafio mostrar o quanto as interpretações computacionais e representacionais são válidas em seu domínio e perante as outras ciências. Sem relacionar as questões cognitivas da linguagem, percepção ou solução de problemas com aspectos neurológicos e antropológicos, a ciência cognitiva pode resultar incompleta e incoerente. Talvez os filósofos tenham, então, alguma contribuição razoável para orientação desse debate(8).

Referência Bibliográfica

GARDNER, H. A Nova Ciência da Mente; trad. Cláudia M. Caon. - São Paulo: Edusp, 1995.

Notas

1. Veja GARDNER, H. A Nova Ciência da Mente, I, 2, pp. 43-47.

2. Veja GARDNER, H. Op. Cit, idem, pp. 47-50.

3. Veja GARDNER, H. Idem, ibdem, pp. 50-53.

4. Veja GARDNER, H. Ibdem, ibdem, pp.53-55.

5. Veja GARDNER, H. Ibdem, ibdem, pp.55-56.

6. Veja GARDNER, H. Ibdem, ibdem, pp. 56-57.

7. Veja GARDNER, H. Ibdem, ibdem, p. 57.

  1. Veja GARDNER, H. Ibdem, ibdem, pp. 57-60.

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